terça-feira, maio 31, 2005

E a vida sempre nos surpreende, tentando tragicamente dar um sentido menos egoísta às nossas dúvidas existenciais. Como é que isso acontece? Um dia simplesmente acaba tudo. É estranho como certas coisas absolutamente distantes de nós acabam ressuscitando perguntas tão antigas e tão esquecidas...

Eu me pergunto repetidas vezes: então crescer é isto? É viver de feriado em feriado, apagando sonhos e fugindo covardemente das possibilidades, guiados pela estúpida convicção de estar fazendo a coisa certa... O que é certo, então? É fazer o que se quer, amar desesperadamente e ilimitadamente como se tem vontade, é sonhar como uma criança e perseguir todas as borboletas que cruzarem seu caminho? Ou será que é certo ocupar todo seu tempo construindo uma segurança material, que não é senão ilusória, porque não pode existir segurança material entre seres mortais... E de repente a frágil linha da vida se rompe em suas mãos, e você percebe que se ali fosse você, mergulhado eternamente em águas profundas, você, que deixaria tanto, tudo que construiu com tanto sacrifício, não levaria nada, porque nunca teve tempo para lembrar que as coisas que nós podemos levar daqui não são fabricadas no suor do trabalho, mas no calor das paixões irresponsáveis e das loucuras infantis...

Se eu morresse hoje, morreria feliz?
A única coisa que faz sentido em minha vida agora são as pessoas que eu amo.

Sou apenas eu que penso assim, ou todos concordam que a vida é pouca e que pecado é passar o inverno esperando o verão, o dia esperando a noite, a vida esperando a morte, enquanto todas as belezas do mundo explodem do lado de fora da janela do seu escritório? Acho que inventaram a vida eterna para que as pessoas não se importassem em doar suas vidas para a produção de mais e mais e mais riqueza e poder (para outros), esquecendo de tudo que é importante e verdadeiramente significativo para elas... Vida eterna... eu não quero se não puder levar comigo flores, passarinhos, mariposas, luas e estrelas, se não puder levar comigo o cheiro do meu amor na minha cama e o seu coração, que é o único par do meu coração em tudo nessa vida, o suspiro das minhas crianças dormindo, a alegria das pessoas que eu amo tanto, o abraço de reencontro dos meus amigos, o gosto da parmegiana da minha infância e da pizza de atum que só meu pai sabe fazer, as lágrimas minhas e de minha mãe nos filmes de chorar e a confiança que temos uma na outra, a cumplicidade que sempre existiu entre eu e minhas irmãs na hora que "o bicho pega", o medo de filme de terror, os gatinhos de rua que nós trazemos para casa escondido, o meu cachorro homossexual, as aventuras pelas ruas da cidade e os piqueniques na garagem, as madrugadas em claro, as cicatrizes no joelho, o amor, o amor, o amor...

Como é triste não ter tempo para a vida!

E então, como fazer? Como virar a seta do tempo e ficar criança para sempre? Qual é o caminho certo? É se conformar e esquecer? Será que tem mesmo jeito de esquecer essa fome louca de vida que pulsa dentro do peito da gente? Se alguém souber como esquecer, por favor, não me ensine nunca. Porque até a dor de cair de pára-quedas na vida real de vez em quando é mais suportável do que a ausência absoluta de si mesmo durante toda a eternidade.

Eu não sei, mas algo acabou de mudar.

Plágio de mim mesma - tirado do Leite no Pratinho.