Indo para a aula de música, à tarde, sou surpreendida por uma tempestade de verão. Eu, que não costumo ter medo de me molhar, segui em frente, até que se tornou impossível enxergar qualquer coisa à minha frente, tal era a intensidade da cortina de água que cobria tudo. Parei em um ponto de ônibus, já atrasada para a aula, toda molhada, com frio, travando internamente uma batalha contra o mau humor, que já começava a me dominar nesse momento. A chuva não dava o menor sinal de diminuir; o tempo passava e minha irritação aumentava. De repente chega uma senhora mais velha, muito gorda, vestindo uma saia de pano vagabundo, protegida por um guarda-chuva não menos vagabundo, e puxando pela mão um garotinho de uns cinco anos, de chinelos nos pés, todo molhado. Ela senta no banco, tira a blusa de frio do menino para secar-lhe os cabelos. Depois de um tempo observando, intrigado, a rua e as pessoas que corriam apressadas como se ainda pudessem se salvar da chuva, ele me olhou, e com um sorriso simples e sincero, perguntou: "você está com frio?". Eu disse que sim, um pouquinho, e perguntei se ele estava. "Sim, um pouquinho", me respondeu, ainda sorrindo de uma forma que creio só as crianças serem capazes. Pouco depois, a chuva diminuiu, e eu segui meu caminho, deixando para trás o menino, a senhora, o ponto de ônibus, o sorriso que fez o tempo parar e meu coração se abrir.
Há pouco menos de três anos, quando eu entrei para a faculdade e comecei a trabalhar, e o mundo de repente se revelou em toda sua podridão e sujeira, eu comecei a acreditar que nunca mais conseguiria ver beleza na vida. E durante muito tempo ainda, me deixei consumir pela amargura, por uma tristeza que tem explicação, mas que não tem saída, porque não admite saída, não quer ver saída. Uma tristeza que se alimenta de si mesma, e corrói tudo por onde passa. Estou mais velha agora, e quando deveria estar mais e mais mastigada pela engrenagens do mundo, sinto-me cada vez mais distante da adulta que eu pensava que deveria ser e que acabaria me tornando depois de algum tempo. Um sorriso, uma pergunta, e o tempo se curvou aos pés daquela criança, a simplicidade com que ela se deixava ser tocada por tudo me comoveu como música, como poesia.
Há muito mais beleza escondida por aí do que se pode pensar. Mas é preciso olhar pra ela.
3 comentários:
é preciso se permitir. a maioria nem se deixa saber dessas coisas.
em tempo: será sempre bem-vinda.
a quanto tempo voce não deixou-se molhar pela chuva como aconteceu?
quanto mais velhos ficamos, mais desejamos a comodidade, e ela é presente em pequenas coisas, que vão se agravando: deixa-se de subir uma ladeira, livar-se de recordações que te fere, deixa-se de olhar pro céu, porque ja sabe que ele é azul...
uma chuva é muito mais que água caindo. é como se as nuvens lavassem tudo, mas só é feito quando deixamos.
a comodidade de manter-se seca e aquecida quase fez com que o dia fosse tomado pelo mau-humor. mas a criança te fez aceitar ser lavada.
sempre houve beleza em todos os cantos, mas ignoramos. E essa visão de podridão salientou os pontos negativos. por favor, mude, não porque me incomoda, na verdade eu tenho a mesma visão do mundo... mas mude por voce, mude para encontrar prazer e beleza em todos os caminhos.
os meninos. é que eles não têm medo.
eu conseguia plantar bananeiras e dar cambalhotas e andar descalço em barro com chuva.
um dia parei numa praça e subi num escorregador. já foi uma coragem. e bem. era noite, e então... tive vertigem dos escorregador!
eu pensei em como ia chegar lá em baixo.
a gente tem que ser como os meninos.
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