domingo, fevereiro 17, 2008

Preciso aprender a dançar. Devo conseguir me olhar no espelho sem receber contra minha face os cacos da minha auto-imagem destroçada. Quando criança, eu sonhava que um dia eu seria uma mulher bonita - eu achava que bastava crescer, que o tempo cuidaria de me transformar na mulher que eu sonhava ser. Já faz tanto tempo que nem me lembro mais quem era essa mulher, e tampouco me importa: ela já foi muitas, menos eu. Às vezes sinto que esse corpo está errado, que não deveria estar assim, que deveria ser outro. Passei os anos esperando o momento em que eu seria, enfim, outra pessoa, aquela dos meus planos - então eu estaria pronta para começar a viver.
Sempre projetei minha felicidade em tudo que era diferente de mim. "Se eu fosse oito quilos mais magra", ou "se meu cabelo fosse daquela cor", ou então "se minhas roupas fossem outras", minhas pernas, minha vida. Então eu emagreci os oito quilos, eu pintei o cabelo, mudei as roupas, e nada: eu continuava sempre eu. Cresci, aprendi, mudei de idéias, de casa, de escola, de amigos, mas eu, eu estava sempre ali, como uma cicatriz feia em minha vida. Por isso, é preciso dançar. É preciso fazer qualquer coisa que me arrebente contra mim mesma, contra esse muro frio e calado que eu construí para me afastar da imagem maldita no espelho, para esquecer que essa imagem sou eu.
Eu me perdi nessas fantasias e não consigo dizer o que é real à minha volta. Parece que eu deveria estar sempre em outro lugar, parece que estou sempre a um passo da minha vida: às vezes, um passo atrás, em outros momentos, um passo a frente. Me sinto irremediavelmente só, e a solidão ainda é amarga e pesada.

"Toca-me. Toca-me", soluça incessantemente a menina rejeitada que eu guardo em meu peito, sempre a implorar em silêncio pelo toque lascivo, pelo olhar desejoso, disposta a se contentar com qualquer migalha de amor.


Meu coração, bobo da corte de um deus sozinho, continua a fazer suas trapalhadas para divertir minha velhice a olhar pra trás. Enquanto isso, eu me afogo nos mesmos pântanos obscuros de sempre. Os medos, os mesmos velhos medos.



"Menina dos olhos verdes,
porque me não vedes?"

6 comentários:

Unknown disse...

Possivelmente a menina novinha esperava no espelho ser a 'popstar' do momento, ser aquela que todos queriam ter nos primeiros quinze minutos de vazio. Mas a menina cresceu, olhando no espelho e esperando, assim mesmo, ser a boba que ri sem sentir graça e que chora para chamar a atenção. Mas há pessoas que não conseguem ser tão superficiais, foi então que a menina parou no espelho da infância e viu que ela virou a mulher dos sonhos, que pensa, que diz, que faz, que entra na vida das pessoas e antes de dar quinze minutos ela já cativou-as e que esta demonstração extraordinária de si própria durará bem mais que quinze minutos, durará a vida toda, quiçá pós-esta.

Anônimo disse...

Porque a mulher que desejara ser não é vc mesma? antes voce do que outra, nao? pensa assim... cresci sem ser o que espelhei. a imagem que sonhamos normalmente é a imagem de uma mulher de calendário,que cansamos de olhar, certo? ou não,pode ser uma imagem cansativa qualquer,porque por termos nos tornado o que talvez está longe de ser sonhado pode ter sido proposital,para que pudéssemos suportar. Mas é a verdade minha cara... é que a existencia em si enjoa.

Fora isso, podemos fazer sim brigadeiro com um "conversar" agradável. ps- brigadeiro com ou sem coiso? é.

enfim...dia desses a gente combina.
te adoro menina dos olhos verdes.

R. Marcus disse...

Gostei dos seus textos. Obrigado pela visita e volte sim.

Anônimo disse...

o livro - caçador pipas é bom sim minha querida... mto bom. mesmo!

- Vistes por aí minhas vestes?

Raskólhnikov disse...

belos textos.

tb sei de uma menina de olhos verdes, só que esta me lança contra as paredes.

abraços,

Raskólhnikov disse...

pq ficou dois anos sem postar nada no blog?