segunda-feira, novembro 03, 2008

Ela...

(Há quase cinco anos, uma amiga - a melhor, provavelmente - escreveu um texto sobre as coisas que ela pensava serem as mais importantes sobre si mesma, aqueles detalhes que quase ninguém sabe, mas quando sabem, você sabe que é importante. Ela me pediu na época que fizesse o mesmo. Já me cobrou várias vezes depois, mas eu nunca consegui escrever, porque sempre me achei instável demais pra pensar em qualquer coisa definitiva sobre meu caráter. Mas não custa tentar.
O texto da Divina: http://deprimer.blogspot.com/2005/07/ela.html
Conforme a solicitação, vou TENTAR seguir o mesmo modelo.)


Herdou por criação a neurose da família. Se preocupa o tempo todo, com todos - é exaustivo. Herdou a neurose, mas rejeita a impiedosa inabilidade para a felicidade que domina a genética das mulheres de sua família. Quer ser feliz.

Acredita no amor, mas tem muito medo de perder - tanto que já perdeu, por desistência, para evitar o sofrimento.

Quis fazer ballet, não tanto para ter a graça e o corpo das bailarinas, mas por admirar a liberdade com o próprio corpo que ela nunca teve. Seu corpo não mudou muito desde que tinha quinze anos, e muitas vezes, parece errado, embora sua cabeça às vezes lembre uma senhora de oitenta anos. Isso já deu nó em sua cabeça: é difícil se reconhecer adulta se o espelho te mostra a mesma menina de seis anos atrás. Mas resolveu não esperar pelas rugas para se sentir adulta, e assumir a contradição que é, porque se sente.

Se apaixona com facilidade por todas as pessoas que conhece. Tem seu coração partido quando lhe viram as costas sem nem ao menos tentar conhece-la. Porque ela gosta de todo mundo a priori, não entende as pessoas que desgostam a primeira vista.

Já teve muito medo de falar "eu te amo", mas não tem mais.

Já acreditou em amor livre, relacionamento aberto, mas é muito insegura e ciumenta.

Tem muito medo de engordar, e gostaria de ter um corpo mais bonito, mas não consegue se exercitar sozinha e não tem dinheiro para academia.

Tem um pavor inexplicável de barata, é incapaz de permanecer no mesmo ambiente e jamais conseguiria reunir forças para matar uma.

Pensa nele todos os dias, e é feliz por te-lo encontrado tão cedo.

Guarda um rancor de vida inteira, e quase ninguém sabe o quanto dói nela a falta do amor da mãe. É sua maior ferida, e jurou pra si mesma que só teria um filho quando tivesse certeza de que o amaria mais que tudo na vida.

Sente muita falta do pai, e evita de pensar nele pra não doer. Ainda não entende por que ele não tem a vida que merece.

Foi casada uma vez, por três anos, embora de maneira "informal". Aprendeu muitas coisas com esse casamento, a principal delas foi a se permitir ser feliz, apesar de tudo.

Não sabe ainda se acredita em Deus, prefere não pensar nele. Mas acredita em reencarnação, extraterrestres e já viu alguns mortos passeando pela casa. Acredita no amor, e por mais que todas as evidências provem o contrário, acredita que o "até que a morte os separe" pode existir, com um pouco de compreensão e paciência.

É friorenta e está aprendendo a nadar aos 21 anos. Não sabe andar de bicicleta, mas gostava de patins. Não acompanhou a evolução do videogame, mas adora Super Nintendo. Gosta de filmes de terror, mas não gosta de ver mutilações.

Ama animais, já tentou adotar cães e gatos de rua escondido dos pais e quando criança sonhava em fugir para o meio do mato levando todos os animais maltratados da cidade. Ainda sonha, às vezes, quando o mundo parece hostil demais.

Ri das mesmas piadas há anos e anos.

Já fez Tae-Kwon-Do, mas nunca quis lutar em campeonatos e fazer carreira no esporte.

Já se apaixonou milhões de vezes, mas em apenas três foi correspondida.

Odeia encontrar conhecidos aleatórios no ônibus e ter que forçar uma conversa sem assunto. Ônibus é lugar de sonhar acordado.

Às vezes gosta da solidão, mas tem medo da solidão da velhice.

É levemente hipocondríaca. Adora ir ao médico, mas por causa da anamnese: adora sentir que tem alguém interessado em sua vida, ainda que por obrigação profissional.

Tem nojo de homens que pensam pelo pau, de cantadas e comentários escrotos. Odeia homens que pensam que qualquer mulher adoraria dar pra eles, ainda mais quando isso não é verdade (na maioria dos casos).

Já teve pneumonia e dengue ao mesmo tempo, e ficou um mês no hospital, junto com as duas irmãs, também com dengue.

É frustrada porque nasceu com a aptidão errada. Tem um ouvido bom, e ama estudar música, mas escolheu artes plásticas para profissão e não sabe desenhar.

Se assusta com facilidade, principalmente com sons, e tem certeza que morre imediatamente do coração se alguém resolver, de brincadeira, puxar seus pés por baixo da cama.

Ainda sonha, todos os dias, em se tornar a mulher que sempre quis ser...
(...)

3 comentários:

Gigopepo disse...

É uma menina linda que se acha feia.
Prefere acreditar que será abandonada mesmo tendo certeza que seu rapaz vai ama-la para sempre.
É tão insegura quanto seu companheiro, mas mantém uma pose de independência que a permite viver sem sofrer com o "precisar dos outros".

Mas é amada, muito amada.

Anônimo disse...

Acredita no amor, mas tem muito medo de perder - tanto que já perdeu, por desistência, para evitar o sofrimento.

Guarda um rancor de vida inteira, e quase ninguém sabe o quanto dói nela a falta do amor da mãe. É sua maior ferida,...

Sente muita falta do pai, e evita de pensar nele pra não doer. Ainda não entende por que ele não tem a vida que merece.

Não sabe ainda se acredita em Deus, prefere não pensar nele. Mas acredita em reencarnação, extraterrestres e já viu alguns mortos passeando pela casa.

Às vezes gosta da solidão, mas tem medo da solidão da velhice.

É levemente hipocondríaca.

Ainda sonha, todos os dias, em se tornar a mulher que sempre quis ser...

- MEU DEUS -
e não o sou tb?
vida essa. essa vida. só acredito na impermanência.

Beth Finholdt disse...

Você escreve muito bem! E as vezes, as pessoas não viram as costas sem tentar lhe conhecer propositadamente, em alguns casos elas tem problemas demais consigo mesmas! (Vixe parece q sou eu!)
Adoro seu blog!
Espero que escrevas mais ferquentemente!