sexta-feira, agosto 07, 2009

"Os mundos uivam o próprio canto fúnebre.
e nós somos macacos de um Deus frio".
Karl Marx

Às vezes pequenos acontecimentos possuem um descomunal poder de subverter nossas convicções e derrubar nossos estúpidos castelos de areia. Um pequeno atraso, um pequeno incidente pode se tornar extraordinariamente catastrófico para as ilusões que nos mantêm de pé.
Acordar todos os dias no mesmo horário, vestir as velhas máscaras que, de alguma forma, garantem a estabilidade da ordem social, marchar, dia após dia, estupida e resignadamente para o sacrifício implacável da inteligência, da criatividade, de qualquer resquício de verdade e beleza que ainda exista dentro do peito desses homens - esses pobres homens, eu, você, todos nós. Massas uniformizadas de animais de carga, servimos diariamente a uma máquina cruel que nos torna submissos, hipócritas, ignorantes que fecham os olhos para seus próprios desejos e necessidades, suprimindo qualquer possibilidade de selvageria, de instinto de liberdade - a sobrevivência levada às últimas consequências, em detrimento das experiências que dão sentido ao tempo que passamos nesse mundo. E esse parece ser, de alguma forma, o destino irrevogável de todo homem: eliminar, com impressionante esforço e auto sacrifício, a própria consciência, aquilo que faz com que um homem seja insubstituível, que faz com que sua existência tenha alguma importância sobre o mundo. O homem é o cavalo do homem.
Vejo tanta tristeza, tanto cansaço e desistência, homens iguais, sem rosto, perdedores de tudo, homens incapazes de vencer a própria vida, que jamais lutaram por nada, que se deixaram engolir pelo mundo, homens paralisados de medo - medo do risco, medo da dor, medo da loucura (o medo mais primordial de qualquer ser humano). Medo da enorme responsabilidade que vem junto com a felicidade genuína - a responsabilidade de ter olhos num mundo de cegos. Homens cujas mortes serão sentidas com alívio pela terra, cujas histórias, infinitamente repetidas por inumeráveis gerações de cães, não serão lembradas por ninguém, porque a ninguém importaram: homens que nada mais fizeram na vida que executar tarefas mais ou menos essenciais à sobrevivência de um corpo social, do qual fazemos parte apenas como elementos estruturais substituíveis, cujo fracasso implica nosso fracasso, mas cujo sucesso normalmente não nos diz respeito.
Acontecimentos tão inocentes podem despertar em uma pessoa a consciência do mundo, porém são poucos os que conseguem suportar o peso dessa revelação sem desistir, sem enlouquecer. Sobra apenas a constatação de uma condenação irrecorrível de quase todos os homens à condição de escravos - escravos do dinheiro, da moral, do medo, de Deus - contra a qual nada podemos senão na loucura ou na morte.

quinta-feira, agosto 06, 2009

Como a minha capacidade de escrever foi embora junto com o meu hábito de leitura, vou começar a postar uns textos antigos que encontrei recentemente. Vou ter que editar de leve, mas são extremamente amargurados (foram escritos entre a época que eu trabalhava para uma psicóloga antiética e a época que eu trabalhava com telemarketing para um banco - quando eu ainda fazia psicologia, não bebia, não fumava, nem fazia idéia do que eu queria pra minha vida).



Maaaaas antes disso, eu vou contar o sonho mais bizarro de todos os tempos, que tive essa semana, aparentemente drogada de maracugina (é com G mesmo, viu?). Foi o máximo de aleatoriedade que meu inconsciente atingiu na minha vida, e esse eu DUVIDO que Freud explique.

Eu estava num templo antigo (de civilizações pré-colombianas), e eu só me lembro a partir de quando já começou a ação. Eu estava meio que me escondendo de alguém, ou correndo de alguém, e precisava chegar em um lugar do templo (que mais parecia um restaurante japonês com uma decoração chique) e salvar uma pessoa. Eu estava correndo para salvar essa pessoa.

Acontece que quando eu cheguei lá, eu descobri que essa pessoa a quem eu tinha que salvar era ninguém menos que o Indiana Jones, e que eu tava pegando ele. Mas não o Indiana Jones novo e bonitão, ele velho - foda como sempre, mas velho. (Detalhe: tem mais de seis meses que eu não vejo nada relacionado a Indiana Jones). Não sei por que, o meu ex professor de física por quem eu era apaixonada (e não vejo desde o cursinho, há cinco anos) estava como que numa banca de examinadores (como que decidindo o destino do meu amor Indiana), e ele ficava me olhando com uma cara de decepção.

De repente a banca some e aparecem duas anãs gêmeas. Essas anãs eram a duplicação de uma anãzinha bonita que parece num um episódio de House, acho que segunda temporada (que eu vi tem uns mil anos), uma anã loirinha adolescente, muito bonitinha (e eu CUSTEI lembrar de onde era a anã depois que acordei). Elas me cumprimentaram com um abraço, o Indiana Jones me deu um beijo na boca (e eu pensei no sonho "aaah que doido que é o Indiana Jones, mas ahhhh ele tá tão velho..."), subiu num palco improvisado, pegou uma guitarra e começou a tocar uma música do Johnny Cash e uma das anãzinhas começou a cantar com a voz da Janis Joplin.

Depois do "show", eu me lembrei que eu tinha que encontrar a pessoa que queria matar o Indiana, e eu descobri que era uma tia minha essa pessoa. Eu a encontrei numa parte do templo conversando com minha mãe, que era tipo um jagunço dela. Aí eu capturei minha mãe, e a fiz confessar o que eu queria saber (???). Ela me confessou então que quando eu tive pneumonia em 2007 e fiquei internada, meu cachorro Floquinho (que morreu tem um mês) teve um "entupimento renal", e teve que ser sacrificado (em 2007, não no mês passado). E pra sacrificá-lo, ela o levou para um zoológico, onde ele foi jogado na jaula do gorila, que arrancou seis costelas dele. Eu chorei muito, fiquei morrendo de pena dele (em momento algum passou pela minha cabeça a lembrança de que eu estava lá quando meu cachorro morreu, há um mês, no hospital), desesperada, e o André, que até então não estava presente no sonho, me levou para a porta de uma igreja de uma cidade histórica de Minas, onde ele, mais uma amiga da faculdade, haviam organizado uma missa em homenagem ao Floquinho. E assim terminou o sonho: eu, na porta da igreja, vendo o caixãozinho dele sendo velado por todos os meus amigos.


NADA nesse sonho faz o MENOR sentido. Eu ainda estou impressionada.

terça-feira, junho 30, 2009


Você, meu amigo, chegou sem querer e sem avisar - eu me lembro bem que não esperava por você naquela manhã de férias há tanto tanto tempo atrás. Você chegou com a energia das crianças e não foi difícil me apaixonar por você. Eu, também criança, mas com preocupações tão maiores que eu, tinha tanto medo de te perder que não deixava ninguém mais passear com você. Você cresceu bem antes de mim, ficou adulto, teve vontades que eu ainda não compreendia. E, da mesma forma, envelheceu mais cedo, cedo demais até. A vida nos deu prazos de validade muito diferentes.
O que eu queria que você soubesse é que você não será esquecido. E que eu sinto muito, muito mesmo, pelas tantos erros que cometi com você. Pelas injustiças, por ter tantas vezes te negado carinho por motivos que nada tinham a ver com você, pela solidão a que te submeti por tanto tempo. Peço seu perdão sabendo que o coração tão cheio de bondade com que a natureza presenteou vocês já me perdoou. Queria que você soubesse que eu não vou esquecer dos meus erros.
E que vou me lembrar das nossas alegrias sempre. De quando você via alguém chorando, e você corria para perto da pessoa e pedia carinho, como quem dissesse: "não chora, eu estou aqui...". Das nossas aventuras inconsequentes pela cidade, dos nossos planos de fugir de casa, dos sustos que você já me passou... De quando eu fiquei sabendo que você estava cego... De quando você foi pro hospital e ficou internado, e eu morava em BH e não podia te visitar. Das bagunças que você fazia, dos móveis que você destruiu, das vezes que mordeu uma de nós. De como você gostava de pão de queijo, de como não comia pão sem manteiga ou biscoito se não fosse recheado de chocolate (e eu só descobri tantos anos depois que chocolate faz mal pra vocês...). De como você arrastava seu pratinho de comida vazio até nós quando estava com fome. De como você avisava quando aparecia algum rato, de como você protegia nossa casa com tanta bravura e obstinação para tão pouco tamanho... De como você tinha tanto medo de foguete, e como eu te acalmava cantando "Across the Univers" para você (eu não sei quando vou conseguir cantar novamente essa música). Eu não vou me esquecer, amigo, eu prometo.
E agora, você precisou ir embora. Eu sei que estava na hora e eu vi o quanto você lutou para ficar, mesmo quando seu corpo já não aguentava mais. Eu também não vou me esquecer de te ver fazendo tanto esforço para respirar, e de como você nos reconheceu quando fomos te visitar. E da dor enorme que eu senti quando percebi que você não iria voltar. Da calma como você se entregou à morte quando não tinha mais jeito. Você a aceitou como se aceita o sono depois de várias noites sem dormir. Alívio, entrega... Eu senti sob minha mão sua respiração cessando aos poucos, eu senti você desistindo depois de tanto lutar. "Dorme, meu amor, está na hora, eu estou aqui com você. Não precisa ter medo, estamos todos aqui..." E seu coraçãozinho se entregando, sem medo, sem desespero, se despedindo... Um pedaço do meu coração foi embora com você, meu amor, meu irmão.
Agora, meu amigo, resta a saudade acima de tudo. Saudade que eu sei que vou sentir por todos os dias da minha vida (que vai ser um pouco mais longa sem você). Saudade de sua rabugice, de te fazer carinho, de ameaçar pegar seu brinquedo. Queria que você soubesse que foi uma honra ter você em nossa família. E que, apesar de minha tão abalável fé e de minha tão grande incerteza sobre tudo, eu ainda guardo uma esperança de te reencontrar um dia. É essa esperança que me dá coragem para encarar o vazio do cotidiano - a morte tem a capacidade de tirar o véu da ilusão que cobre esse vazio - porque, infelizmente, o mundo não pára pra gente enterrar nossos mortos.
Vá em paz, meu irmão. Obrigada por sua lealdade e pelas alegrias que você nos deu. Não te esqueceremos.

domingo, junho 14, 2009

Me lembrei hoje que meu primeiro presente de Natal "caro" (não era caro, mas para uma criança com menos de dez ano era) foi uma máquina fotográfica. Como eu disse, eu tinha menos de dez anos, e me lembro que fui eu que pedi para meus pais. Era uma compactazinha de filme, se nenhuma função especial. Pensando bem, era uma pinhole mais desenvolvida. Ela fazia tudo sozinha, era só apontar e clicar - mas também não fazia nada demais. E eu me lembro que no primeiro dia eu já gastei todo o filme que meu pai havia colocado. Lembro-me que, quando ele levou o filme para revelar, ele me deu um sermão enorme: eu havia fotografado plantas, pássaros, poste. Depois eu fotografei meus primos, um por um. Eu gostava daquilo, me sentia bem. Era instintivo.
Mas foi só há uns quatro anos atrás, durante uma visita a uma exposição com fotografias no Palácio das Artes, que eu pensei: "Olha... eu acho que seria feliz fazendo isso..."

É, eu estava certa. Eu estou sendo bem feliz fazendo isso.

terça-feira, junho 09, 2009

To aprendendo a pensar com imagens e desaprendendo a escrever.