"Os mundos uivam o próprio canto fúnebre.
e nós somos macacos de um Deus frio".
Karl Marx
Às vezes pequenos acontecimentos possuem um descomunal poder de subverter nossas convicções e derrubar nossos estúpidos castelos de areia. Um pequeno atraso, um pequeno incidente pode se tornar extraordinariamente catastrófico para as ilusões que nos mantêm de pé.
Acordar todos os dias no mesmo horário, vestir as velhas máscaras que, de alguma forma, garantem a estabilidade da ordem social, marchar, dia após dia, estupida e resignadamente para o sacrifício implacável da inteligência, da criatividade, de qualquer resquício de verdade e beleza que ainda exista dentro do peito desses homens - esses pobres homens, eu, você, todos nós. Massas uniformizadas de animais de carga, servimos diariamente a uma máquina cruel que nos torna submissos, hipócritas, ignorantes que fecham os olhos para seus próprios desejos e necessidades, suprimindo qualquer possibilidade de selvageria, de instinto de liberdade - a sobrevivência levada às últimas consequências, em detrimento das experiências que dão sentido ao tempo que passamos nesse mundo. E esse parece ser, de alguma forma, o destino irrevogável de todo homem: eliminar, com impressionante esforço e auto sacrifício, a própria consciência, aquilo que faz com que um homem seja insubstituível, que faz com que sua existência tenha alguma importância sobre o mundo. O homem é o cavalo do homem.
Vejo tanta tristeza, tanto cansaço e desistência, homens iguais, sem rosto, perdedores de tudo, homens incapazes de vencer a própria vida, que jamais lutaram por nada, que se deixaram engolir pelo mundo, homens paralisados de medo - medo do risco, medo da dor, medo da loucura (o medo mais primordial de qualquer ser humano). Medo da enorme responsabilidade que vem junto com a felicidade genuína - a responsabilidade de ter olhos num mundo de cegos. Homens cujas mortes serão sentidas com alívio pela terra, cujas histórias, infinitamente repetidas por inumeráveis gerações de cães, não serão lembradas por ninguém, porque a ninguém importaram: homens que nada mais fizeram na vida que executar tarefas mais ou menos essenciais à sobrevivência de um corpo social, do qual fazemos parte apenas como elementos estruturais substituíveis, cujo fracasso implica nosso fracasso, mas cujo sucesso normalmente não nos diz respeito.
Acontecimentos tão inocentes podem despertar em uma pessoa a consciência do mundo, porém são poucos os que conseguem suportar o peso dessa revelação sem desistir, sem enlouquecer. Sobra apenas a constatação de uma condenação irrecorrível de quase todos os homens à condição de escravos - escravos do dinheiro, da moral, do medo, de Deus - contra a qual nada podemos senão na loucura ou na morte.
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