sábado, julho 09, 2005

Como se não soubesse
surpreendeu-o o espectro repentino daquele passado
e as velhas grades de proteção tombaram
vencidas pelo tempo e pela resignação.

A casa antiga guardava a sobriedade do abandono
e encerrava atrás de seus portões um prisioneiro imortal
mas escondia em seu coração um tesouro eterno,
e mil brinquedos de crianças esquecidas.
E os lúcidos fantasmas que a protegiam
não eram mais que brancos lençóis
e fabulosas histórias perdidas através de séculos.

O pó, as janelas quebradas, a lúgubre secura das rosas
não eram senão apenas uma fantasia
mas o solene luto pelo deus morto nas montanhas
sobrevivia sempre aos meses do frio.

E porque frias eram as mãos do homem
e porque duros eram seus olhos de muitos anos
(tal como a rocha que peita o oceano e a maré)
o homem então revestiu-se de febril coragem
e guiado pela incorrupta certeza da fé
invadiu a casa e derrubou suas paredes
como quem destrói muralhas de um império inimigo
e tomou sua fortuna infinita e libertou seu cativo
como quem cumpre seu único e exato destino
por tanto tempo aguardado
e para o qual se preparou em vida sem saber.

Assim
se fez homem.
E por fim pôde caminhar serenamente
por entre as ruínas de um longo pesadelo.
Sentiu que pisava enfim
os cacos de remotos e cruéis espelhos íntimos
e as velhas páginas,
corroídas como seu espírito cansado,
arrancadas para sempre do livro dos seus dias.
"Hoje sei muito bem que nada na vida repugna tanto ao homem do que seguir pelo caminho que o conduz a si mesmo."
Hermann Hesse

quarta-feira, julho 06, 2005

Aquele homem já não era o mesmo.
De repente
pareceu outro.
Assim, outro,
como se já não fosse
como se não tivesse sido jamais.

Mas era, e isto era sabido.
Porém os olhos podiam fechar-se novamente
porque não mais importava a abertura das portas
não mais importavam as rachaduras no espelho
e nem a sombra dos passos da bailarina.
Bastavam as madrugadas juntos
o café na cozinha, o silêncio, a solidão cúmplice.
Bastavam para sempre as lembranças
e a certeza cega do futuro.
Bastava o sentimento
e todas as horas do dia.

Porque o mundo era isto, e só.
E era perfeito
assim.

Sobre o Amor

"(...)
Mas se, receosos, procurardes só a paz do amor e o prazer do amor,

Então é melhor que oculteis a vossa nudez e saiais do amor,

Para o mundo sem sentido onde rireis, mas não com todo o vosso riso, e chorareis mas não com todas as vossas lágrimas.

O amor só se dá a si e não tira nada senão de si.

O amor não possui nem é possuído;

Pois o amor basta-se a si próprio.

(...)

E não penseis que podeis alterar o rumo do amor, pois o amor, se vos achar dignos, dirigirá o seu curso.

O amor não tem outro desejo que o de se preencher a si próprio.
(...)"


Gibran Khalil Gibran
Estou tentando parir
um poema
Esta preso na minha garganta
Em meus olhos
Em meus dedos
esses dedos pequenos e delicados
que carregam poderosas garras no espírito
assim como eu.
Eu carrego um poema nas minhas entranhas
Um poema indeciso
grande ou pequeno
simples.
Um poema que não sabe dizer palavra
que não conversa em outras línguas.
Um poema silencioso
que seu instalou em meu peito
que luta para sair:
pressiona minhas costelas
arrebenta meus pulmões
e grita
e chora
e dói.
Trabalho de parto sem anestesia:
eu sem inspiração.
Um poema que não quer nascer.


E ele fica aqui, seguro,
impassível,
esperando apenas a coragem do silêncio,
o último raio de sol,
a primeira escuridão.
"A derrota me satisfaz porque ocorreu, porque está inumeravelmente unida a todos os fatos que são, que foram, que serão, porque censurar ou deplorar um único fato real é blasfemar contra o universo."

Jorge Luis Borges