Como se não soubesse
surpreendeu-o o espectro repentino daquele passado
e as velhas grades de proteção tombaram
vencidas pelo tempo e pela resignação.
A casa antiga guardava a sobriedade do abandono
e encerrava atrás de seus portões um prisioneiro imortal
mas escondia em seu coração um tesouro eterno,
e mil brinquedos de crianças esquecidas.
E os lúcidos fantasmas que a protegiam
não eram mais que brancos lençóis
e fabulosas histórias perdidas através de séculos.
O pó, as janelas quebradas, a lúgubre secura das rosas
não eram senão apenas uma fantasia
mas o solene luto pelo deus morto nas montanhas
sobrevivia sempre aos meses do frio.
E porque frias eram as mãos do homem
e porque duros eram seus olhos de muitos anos
(tal como a rocha que peita o oceano e a maré)
o homem então revestiu-se de febril coragem
e guiado pela incorrupta certeza da fé
invadiu a casa e derrubou suas paredes
como quem destrói muralhas de um império inimigo
e tomou sua fortuna infinita e libertou seu cativo
como quem cumpre seu único e exato destino
por tanto tempo aguardado
e para o qual se preparou em vida sem saber.
Assim
se fez homem.
E por fim pôde caminhar serenamente
por entre as ruínas de um longo pesadelo.
Sentiu que pisava enfim
os cacos de remotos e cruéis espelhos íntimos
e as velhas páginas,
corroídas como seu espírito cansado,
arrancadas para sempre do livro dos seus dias.