terça-feira, junho 14, 2005

"[...]
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvidas que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isso é talvez ridiculo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Como o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é flores e as árvores
E os montes e o sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as arvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez para eu o ver,
Sol e lua e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes e luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais seu eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda hora."


[ALBERTO CAEIRO - Fernando Pessoa]