Andei por tanto tempo em círculos que agora não sei mais onde estou, e menos ainda onde deveria estar. A tarde foi embora também e eu fiquei sozinha com os meus espelhos. Crescer não foi suficiente para que eu me tornasse quem eu queria ser, como também não foi suficiente cair e me perder tantas vezes.
Não importa a habilidade do joalheiro - não é possível fazer diamantes de cristais vagabundos de beira de rio...
O relógio já deu suas voltas, pelas quais tanto esperei, e só serviu para que eu visse que sou mesmo quem sempre me disseram que eu era. Tantando não decepcionar os pretensos roteiristas da minha vida, eu acabei decepcionando a menina que jurou para si mesma jamais se tranformar no que sou agora: igual a todos os outros, vencida, rendida, prisioneira.
Onde estão as asas que eu pensava possuir? Como pode ser tão fácil desistir de si mesmo, de sonhos que me eram antes tão vitais?
O tempo continua arrastando o meu dia, e sei que escrevo para fugir do dedo severo que sinto apontado para mim, condenando a adulta que ainda não sou e devo ser, porque a vida passou e eu fiquei para trás...
Mais uma vez eu grito e ninguém responde. Eu os ouço, sei que estão aqui, mas meus gritos não são ouvidos por eles e aos poucos minha voz enfraquece e morre: eu também já não acredito em ninguém. Estamos mesmo todos sozinhos? Penso que cada um vê somente a si mesmo em tudo. Refletimos em tudo um pouco de nós mesmos, para que, mesmo em um mundo tão hostil e confuso como esse, sejamos capaz de reconhecer alguma coisa do que somos. Ou pensamos que somos. Acho que. Não sei bem.
A noite está mais fria e o céu está mais escuro. A minha melancolia se dissolve nas nuvens - por um instante eu não sei dizer se estou viva, mas então eu me lembro que também preciso pagar a passagem do ônibus. Conto as moedas. O dinheiro é suficiente?
Já não me lembro do que eu era antes. Não sei que força me atirou no abismo de tanta solidão e fraqueza. Fecho os olhos com força. Busco em minha memória alguma coisa que seja eu - em vão. Também estou sozinha. Também não sei quem sou e não sei o que procuro.
Ainda me pergunto até quando serei mais um fantasma vagando entre outros mortos. Sei que chegará o dia em que minhas pernas não mais suportarão o peso das minhas máscaras velhas e sujas, que já não enganam a ninguém além de mim mesma. Espero que este dia não demore a vir - estou cansada de me esconder. O que eu espero? Também não sei. Quantas noites eu ainda poderei dormir tranqüilamente até que o teto caia em minha cabeça?
Sei apenas que ainda estou imóvel, esperando aquela estrela cadente que só eu não vi.
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