"Definir isso deve ser difícil, afinal 'definir é limitar'. Não há limitações. Ocasionalmente, pode ser uma coisa espontânea, ceder a um impulso irresistível. Furores uterinos. Desconfio, de vez em quando, que é também um moralícídio (com atenuantes que não vou me dar ao trabalho de citar). Luxúria, gula, vodka. Ambigüidades. O desafogo de confessar e viver experiências e paixões que já não são suportáveis quando incubadas. Etanol na corrente sangüínea e estas palavras num redemoinho cerebral. Nem sempre. Nem é necessário. Estamos dispostos. Predispostos. Contatos imediatos do primeiro grau. No carro. Muita conversa, mais vodka, um pouco de embromação, música, filmes, perguntas e nada de respostas. Calor, muito calor! Pipocas mal feitas em microondas. Riso. Orjantas. Cozinha ativa, aparelho digestivo e quarto também ativos. Um violão, travesseiro, cama. Palavras entre cafés e pingas. Olhos verdes, castanhos e pretos. Cabelos lisos, idéias enroladas, cabelos complicados e idéias também. Desabafos e desavenças. Descontrole." (Raquel)
Saudade besta de um tempo que já passou.
Mas eu ainda acredito nessas palavras, e desconfio de uma sabedoria infinita contida nas entrelinhas desse texto. Coisa de vida, mesmo. Aprender aquilo que a gente sempre soube, mas que a gente faz questão de esquecer, ou fingir que esqueceu - afinal, "viver é muito perigoso". É ou não é? Esquecemos, será que eu esqueci? Tanto riso, tanta coisa boa, tantas verdades, muitas verdades. O descontrole é mais sincero? Eu acho. Sempre acho. Claro, nem sempre é só prazer, nunca é mais sensato, e às vezes dói, dói, dói. Mas é sempre sempre sempre mais verdadeiro, mais vivo, mais sincero. E é bom que se saiba também que, no descontrole, você pode acabar soltando demônios que depois não vai mais saber calar. São riscos, grandes riscos. Mas sem eles, será que vale alguma coisa? Viver com verdade. Verdade, antes de tudo, nas coisas que eu deixo entrar em minha vida, e nas coisas que saem de mim. Verdade pra tocar outras pessoas, pra ser tocada por elas - verdade no entendimento de tudo, nos desejos, no sofrimento também.
Saudade de um tempo em que não era preciso pensar nessas coisas. A gente as vivia apenas, no calor da urgência de felicidade.