Então...
digamos que, após a última bebedeira, eu tenha surtado. Mais uma vez. Já estou me acostumando com isso, na verdade, parece um ciclo: eu bebo demais, faço/falo besteira, passo mal (meu fígado tem se mostrado cada vez mais rebelde e intolerante com meus excessos), solto todos os meus demônios, e no dia seguinte, quando minha consciência desperta de seu coma induzido, e eu tenho todos esses demônios que eu havia libertado para recapturar e aprisionar nos abismos do meu peito, e tantos gritos proferidos para silenciar, e quando a minha severa auto-crítica volta a condenar meus atos, um por um, quando o efeito libertador do alcool se dissolve na poeira cinzenta do cotidiano, eu surto. Surto mesmo. Começo a achar tudo ruim, a pensar que está tudo errado. É mentira que eu tenha chegado a desgostar de beber, mas as censuras todas, todas elas com seus dedos malignos apontados para mim, me fazem crer que eu não deveria mais beber. Então eu corto relações com a vodka. Traço milhões de planos, e faço milhões de de promessas, e tomo decisões. De certa forma, culpar a bebida pelas coisas que eu deixo de fazer é uma forma de argumentar contra ela. No fim, é mais uma tentativa de manter em silêncio tudo que eu quero gritar. E depois de tudo, a monotonia e o sufoco de estar comigo mesma me levam, mais uma vez, a buscar na bebida a vida que eu me nego todos os dias. Não faz sentido, eu sei que não faz sentido.
Mas eu sei que, na verdade, o problema não é a bebida em si. É Thanatos, a pulsão de morte, que me empurra sempre para o abismo dos excessos. Afinal, não é verdade que "o todo se dignifica quando a vida é líquida"? Mas os excessos são traidores. Não te libertam, te aprisionam. Quando percebo, fico refém de um estado alterado de consciência - aí já não sou mais eu, mas todos os meus desejos contidos surgindo com força e falando através de mim. Eu sei que eles fazem parte de mim, mas liberta-los é diferente de se deixar dominar por eles, principalmente porque, quando isso acontece, eu costumo me esquecer mesmo de tudo que eu sou (ou penso que sou - quem sabe?), de tudo que amo, de tudo em que acredito, e até mesmo dos meus prórpios desejos. No fim da noite, eu sou toda um vulcão de frustrações, pronto para cuspir no mundo toda a amargura das próprias covardias. Sim, estou cansada. Meu corpo está cansado - essa estratégia juvenil de fuga está se voltando contra mim mesma, e o estado de liberdade que eu pensava alcançar não passa de uma grande mentira, rindo de mim. Eu, a tola, a covarde, sempre covarde - e a bebida já não me serve como escapatória, mas se torna meu carrasco, ao me empurrar cada vez mais para o confronto comigo mesma, com meus desejos vãos, com minha tristeza escondida, com meus assuntos não resolvidos, com tudo de podre e perdido que eu trago preso no peito.
É necessário, mais do que nunca, suprimir meu feroz superego, e deixar Eros surgir das profundezas profanas da minha (in)consciência sem a ajuda, traidora, da bebida. Fazer da lucidez um estado tão prazeroso quanto a embriaguez, e não somente um período triste do meu dia que eu entrego ao tédio e aos generais da moral e da ordem. Liberar de vez meus demônios, e lidar com eles, e ainda que eu possa sair ferida, estarei mais leve. É, eu acho que é isso.
Um comentário:
Texto deveras interessante! Aliás,gostei mto daqui mocinha. Mais um espacinho com leitura boa para minha distração durante tardes ociosas na locadora. ; )
qto á sua fuga,quer trocar com a minha?
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