Antes era a urgência. E cada palavra era grito. O silêncio era angústia, lentamente, uma angústia pesada, que tira o ar, que tira o chão. Tudo era chão e tudo era pesado, grave - urgente.
Não creio que tenha se passado tanto tempo assim. Alguns anos, muitos dias - já não sei mais. Não sei dizer também o que mudou. Mudou, mudaram? Eu mudei? Procuro o espelho, olho-me atentamente nos olhos. Mudei? Não sei, não sinto. Ainda sou eu, certo? Olho - reconheço-me tão pouco quanto antes, quanto sempre. O mesmo medo vil e inconsistente, o mesmo olhar pesado, os mesmos medos. Ainda sou eu.
Há quanto tempo troquei o dia pela noite e a noite pelo dia, não me lembro. Mas sei que agora é do silêncio que mais gosto. E é com leveza que consigo me mover bem. Na leveza da boa música, das tarde quentes de uma terça-feira qualquer. E tudo é suavidade, tudo é limpo e sincero. Não há mais pressa, o tempo não me persegue mais. Já não fujo dele, nem de mim, nem de ninguém. Às vezes o silêncio é amargo e duro, mas mesmo então ele é vivo, verdadeiro, eu o sinto. Sinto-o com toda sua força - intensamente destrutiva ou pacificadora. Sei que já faz tanto tempo...
No silêncio estou indo de encontro a mim mesma - sempre estive, na verdade, sempre estamos. Mas agora eu sei. Não tenho pressa, e já não dói tanto o profundo e eterno conhecer de mim mesma. Estou aprendendo aos poucos a me conhecer nos outros, nas coisas, nos bichos, nas estrelas, na terra molhada, nos muros cinzentos, na música, no ruído, na sujeira, nos sorrisos. Já não dói tanto assim me olhar no espelho e ver as cicatrizes de tantas lutas vãs contra o que sou. Mais uma vez, estou indo de encontro a mim mesma e aguardo, de armas na mão, o momento incerto de mais um confronto, do qual sairei, novamente, como quem sai de um ovo, como quem expande o corpo, como quem nasce.
"Quem quiser nascer tem que destruir um mundo." (Hermann Hesse)
Um comentário:
o meu silencio ainda sempre pesa.
todas as palavras ainda são gritantes. mudez caótica. cigarro, vodca, sexo impulsivo. Minha cara...
há vida onde parecemos morrer mais.
:)
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