segunda-feira, novembro 03, 2008
Ela...
O texto da Divina: http://deprimer.blogspot.com/2005/07/ela.html
Conforme a solicitação, vou TENTAR seguir o mesmo modelo.)
Herdou por criação a neurose da família. Se preocupa o tempo todo, com todos - é exaustivo. Herdou a neurose, mas rejeita a impiedosa inabilidade para a felicidade que domina a genética das mulheres de sua família. Quer ser feliz.
Acredita no amor, mas tem muito medo de perder - tanto que já perdeu, por desistência, para evitar o sofrimento.
Quis fazer ballet, não tanto para ter a graça e o corpo das bailarinas, mas por admirar a liberdade com o próprio corpo que ela nunca teve. Seu corpo não mudou muito desde que tinha quinze anos, e muitas vezes, parece errado, embora sua cabeça às vezes lembre uma senhora de oitenta anos. Isso já deu nó em sua cabeça: é difícil se reconhecer adulta se o espelho te mostra a mesma menina de seis anos atrás. Mas resolveu não esperar pelas rugas para se sentir adulta, e assumir a contradição que é, porque se sente.
Se apaixona com facilidade por todas as pessoas que conhece. Tem seu coração partido quando lhe viram as costas sem nem ao menos tentar conhece-la. Porque ela gosta de todo mundo a priori, não entende as pessoas que desgostam a primeira vista.
Já teve muito medo de falar "eu te amo", mas não tem mais.
Já acreditou em amor livre, relacionamento aberto, mas é muito insegura e ciumenta.
Tem muito medo de engordar, e gostaria de ter um corpo mais bonito, mas não consegue se exercitar sozinha e não tem dinheiro para academia.
Tem um pavor inexplicável de barata, é incapaz de permanecer no mesmo ambiente e jamais conseguiria reunir forças para matar uma.
Pensa nele todos os dias, e é feliz por te-lo encontrado tão cedo.
Guarda um rancor de vida inteira, e quase ninguém sabe o quanto dói nela a falta do amor da mãe. É sua maior ferida, e jurou pra si mesma que só teria um filho quando tivesse certeza de que o amaria mais que tudo na vida.
Sente muita falta do pai, e evita de pensar nele pra não doer. Ainda não entende por que ele não tem a vida que merece.
Foi casada uma vez, por três anos, embora de maneira "informal". Aprendeu muitas coisas com esse casamento, a principal delas foi a se permitir ser feliz, apesar de tudo.
Não sabe ainda se acredita em Deus, prefere não pensar nele. Mas acredita em reencarnação, extraterrestres e já viu alguns mortos passeando pela casa. Acredita no amor, e por mais que todas as evidências provem o contrário, acredita que o "até que a morte os separe" pode existir, com um pouco de compreensão e paciência.
É friorenta e está aprendendo a nadar aos 21 anos. Não sabe andar de bicicleta, mas gostava de patins. Não acompanhou a evolução do videogame, mas adora Super Nintendo. Gosta de filmes de terror, mas não gosta de ver mutilações.
Ama animais, já tentou adotar cães e gatos de rua escondido dos pais e quando criança sonhava em fugir para o meio do mato levando todos os animais maltratados da cidade. Ainda sonha, às vezes, quando o mundo parece hostil demais.
Ri das mesmas piadas há anos e anos.
Já fez Tae-Kwon-Do, mas nunca quis lutar em campeonatos e fazer carreira no esporte.
Já se apaixonou milhões de vezes, mas em apenas três foi correspondida.
Odeia encontrar conhecidos aleatórios no ônibus e ter que forçar uma conversa sem assunto. Ônibus é lugar de sonhar acordado.
Às vezes gosta da solidão, mas tem medo da solidão da velhice.
É levemente hipocondríaca. Adora ir ao médico, mas por causa da anamnese: adora sentir que tem alguém interessado em sua vida, ainda que por obrigação profissional.
Tem nojo de homens que pensam pelo pau, de cantadas e comentários escrotos. Odeia homens que pensam que qualquer mulher adoraria dar pra eles, ainda mais quando isso não é verdade (na maioria dos casos).
Já teve pneumonia e dengue ao mesmo tempo, e ficou um mês no hospital, junto com as duas irmãs, também com dengue.
É frustrada porque nasceu com a aptidão errada. Tem um ouvido bom, e ama estudar música, mas escolheu artes plásticas para profissão e não sabe desenhar.
Se assusta com facilidade, principalmente com sons, e tem certeza que morre imediatamente do coração se alguém resolver, de brincadeira, puxar seus pés por baixo da cama.
Ainda sonha, todos os dias, em se tornar a mulher que sempre quis ser...
(...)
domingo, setembro 21, 2008
domingo, junho 15, 2008
domingo, março 09, 2008
"Love is natural and real but not for such as you and I, my love..."
Me arrumo para sair. Visto minha melhor roupa, passo maquiagem nos olhos. Por alguns instantes até consigo me sentir bem, bonita. Pra que, pra quem? Olho para a porta e ela continua fechada. Olho para mim e eu continuo sozinha. A noite está aberta. Pela janela vejo a rua deserta, sinto o vento frio - algumas outras janelas também observam a noite, testemunham minha solidão. Procuro o espelho novamente, acendo um cigarro: em vão. Você não virá esta noite, como não veio em todas as outras - eu sei. Aqueles acordes tristes continuam soando em meus ouvidos, muito depois que a música terminou: "se você é tão bonita, por que então está por sua conta esta noite?". Eu sei, eu sei de tudo isso há tempos e tempos, desde sempre.
Talvez eu saia para uma volta - por essa hora só sobraram os mendigos e os bêbados, é com eles que me entendo, é só nesses momentos que consigo me ver sem desespero. Há muito tempo eu não ouvia os passos da bailarina no corredor escuro, há muito tempo não via seu vulto rodopiar com leveza e escárnio através do meu espelho trincado. "Onde você esteve?", penso com alguma melancolia. Os inseguros traços da minha maquiagem se dissolvem lentamente na tristeza que umedece meus olhos, borrando meu rosto, desfazendo sem pudor minha esperança. Mas continuo esperando. O céu revela aos poucos, ainda tímido, algumas estrelas silenciosas. O silêncio, o meu silêncio - só consigo pensar que o tempo das estrelas cadentes já passou para mim, e o rastro de sua invisível travessia não é suficiente para iluminar o meu sono.
Me vejo mais só do que nunca diante dessa ausência, e ela é pesada, densa - preenche o quarto como uma névoa fria, turva meus olhos, me enjoa, me embriaga, me escurece: revela apenas um caminho sombrio, o caminho que me leva irremediavelmente para dentro de mim, para as verdades amargas das quais me escondi em sonhos, para dentro da minha vida. Minha vida se impõe sobre minha vontade, soberana, não consigo fugir, não importa o que eu faça.
Já não sobrou muito da máscara que com tanto cuidado vesti para cobrir minhas cicatrizes - aquelas que ninguém viu, que ninguém quer ver. Me lembro que já faz muitos dias que não bebo, e me surpreendo: há muitos anos eu não me confrontava com a lucidez por tanto tempo. "Se eu pudesse ser quem você queria o tempo todo...", canta meu coração vazio para a noite. Mais uma vez não vejo outra saída senão me esconder num falso orgulho e fingir que não vi a ferida enorme que o último passo da bailarina abriu em meu peito - com algum esforço levanto a cabeça e ensaio a alegria, porque o dia já vai chegar e eu também tenho contas a pagar amanhã.
Por um segundo apenas penso no passado, me lembro menina, me vejo só, embalada por canções que só eu ouvia, e me pergunto confusa como foi que cheguei aqui. Sei bem que não há respostas, mas há muitos anos busco uma pergunta dura e seca que o tempo lançou sem piedade contra minha inocência. Não faz sentido. A porta continua fechada.
Deito-me ainda com a roupa que escolhi para sair, para me sentir desejável, para esperar por você. Adormeço já sem lágrimas nos olhos, e apenas as notas distantes de uma guitarra persistem delicadamente na escuridão: "Eu sei que acabou".
quarta-feira, fevereiro 27, 2008
A chuva e o sorriso do menino
Há pouco menos de três anos, quando eu entrei para a faculdade e comecei a trabalhar, e o mundo de repente se revelou em toda sua podridão e sujeira, eu comecei a acreditar que nunca mais conseguiria ver beleza na vida. E durante muito tempo ainda, me deixei consumir pela amargura, por uma tristeza que tem explicação, mas que não tem saída, porque não admite saída, não quer ver saída. Uma tristeza que se alimenta de si mesma, e corrói tudo por onde passa. Estou mais velha agora, e quando deveria estar mais e mais mastigada pela engrenagens do mundo, sinto-me cada vez mais distante da adulta que eu pensava que deveria ser e que acabaria me tornando depois de algum tempo. Um sorriso, uma pergunta, e o tempo se curvou aos pés daquela criança, a simplicidade com que ela se deixava ser tocada por tudo me comoveu como música, como poesia.
Há muito mais beleza escondida por aí do que se pode pensar. Mas é preciso olhar pra ela.
domingo, fevereiro 17, 2008
Sempre projetei minha felicidade em tudo que era diferente de mim. "Se eu fosse oito quilos mais magra", ou "se meu cabelo fosse daquela cor", ou então "se minhas roupas fossem outras", minhas pernas, minha vida. Então eu emagreci os oito quilos, eu pintei o cabelo, mudei as roupas, e nada: eu continuava sempre eu. Cresci, aprendi, mudei de idéias, de casa, de escola, de amigos, mas eu, eu estava sempre ali, como uma cicatriz feia em minha vida. Por isso, é preciso dançar. É preciso fazer qualquer coisa que me arrebente contra mim mesma, contra esse muro frio e calado que eu construí para me afastar da imagem maldita no espelho, para esquecer que essa imagem sou eu.
Eu me perdi nessas fantasias e não consigo dizer o que é real à minha volta. Parece que eu deveria estar sempre em outro lugar, parece que estou sempre a um passo da minha vida: às vezes, um passo atrás, em outros momentos, um passo a frente. Me sinto irremediavelmente só, e a solidão ainda é amarga e pesada.
"Toca-me. Toca-me", soluça incessantemente a menina rejeitada que eu guardo em meu peito, sempre a implorar em silêncio pelo toque lascivo, pelo olhar desejoso, disposta a se contentar com qualquer migalha de amor.
Meu coração, bobo da corte de um deus sozinho, continua a fazer suas trapalhadas para divertir minha velhice a olhar pra trás. Enquanto isso, eu me afogo nos mesmos pântanos obscuros de sempre. Os medos, os mesmos velhos medos.
"Menina dos olhos verdes,
porque me não vedes?"
segunda-feira, fevereiro 11, 2008
"A minha empolgação com algumas coisas com as quais pude tomar contato no carnaval é porque essas coisas me ofereceram chaves para abrir algumas portas na minha vida. Pra começar, o queer, mas não só isso. O queer é apenas um nome que está me levando a diversos estudos, artigos, e a uma análise da minha própria vida e das minha relações.
Há uns seis meses ou mais, tive uma crise na Mary in Hell. Já não me lembro de muitos detalhes. Foi uma noite em que todo mundo beijou todo mundo, eu perdi meu piercing do septo, tive uma crise de ciúmes, e tive também um "clarão de entendimento", com o perdão pela poetagem. Comecei a chorar ali mesmo. Todo mundo achou que foi por causa do piercing perdido, mas não foi. Nesse dia, eu cheguei em casa e apaguei a agenda do meu celular. E entrei em crise mesmo, por um tempão. Me incomodou profundamente o quão superficiais eram minhas relações com o mundo. E foi um período intenso, eu tentava conversar sobre isso com todo mundo - sou meio obsessiva quando tenho esses insights.
Mas o fogo da crise acabou se dissipando e eu não tinha encontrado ainda as respostas que procurava pra minha ansiedade. E creio que pelo menos um caminho eu encontrei lá no carnaval. Nada demais - apenas um início, um começo. Eu não sei se é possível ser verdadeiro consigo mesmo o tempo todo, até porque, como eu não sou podre de rica e não posso dizer um grande FODA-SE para o mundo todo, eu preciso me submeter a certas normas como todo mundo. Mas eu percebi que não estava sendo verdadeira em nada, em nenhum momento da minha vida. A coisa da Mary foi meio que uma gota d'água emocional - eu não queria aquilo! Esse prazer de plástico não me satisfaz! Eu não quero passar a semana inteira me comportando como uma ovelhinha em casa, no trabalho, o tempo todo me anulando para responder às expectativas dos outros, e no fim de semana me contentar com um prazer falso! Não quero criar ilhas, pequenos oásis de alegria enquanto meu cotidiano é um mar de tédio, monotonia, normas normas normas. E o pior é que além de fazer dos fins de semana e feriados essas ilhas, o prazer que eu buscava era falso, não me tocava, não me satisfazia.
Quando eu me vi lá, na boate, "liberando geral", pegando todo mundo, me senti uma pateta! Isso mesmo, Stephanie! Trabalhe como um escravo durante a semana, durante o dia, e no sábado você se enfia numa boate escura onde, por apenas 10 reais de entrada e algum dinheiro em alcool, você pode se liberar! E melhor: ainda ter a ilusão de que você está quebrando algumas regras da sociedade hipócrita em que você vive e vivendo sua vida! Yeah! Mentira! Como assim??? Então meu prazer tem preço, dia, hora e lugar marcados??? Minha diversão é um produto pelo qual eu pago e que eu consumo como consumo uma coca-cola? A primeira hipócrita de todos sou eu.
Essa idéia caiu em mim como uma bomba. Eu me senti uma imbecil. E não só por isso, mas também pela coisa de ficar com todo mundo. Claro que não foi nenhum tipo de ressaca moral, e antes fosse, antes eu realmente tivesse sentido que ultrapassei algum limite moral enfiado na minha cabeça. Nem isso! Aquilo ali não foi nada, nem divertido foi. Porque aquilo ali pra mim era tão banal e tão exterior a mim mesma, e tão superficial como qualquer ação do meu cotidiano chato, como, sei lá, pegar um ônibus. Não me toca, não me move, não deixa nada em mim, não toma nada de mim - coisa que se não tivesse acontecido não teria feito a menor diferença. Já pensou em como é terrivelmente triste isso? Que nossas experiências, e pior ainda, as experiências que chamamos de "lazer", sejam tão banais que acontecendo ou não não fazem a MENOR diferença em nossas vidas? Vou tentar ser mais clara: imagine-se com 90 anos, e ao relembrar sua existência você percebe que você não fez a menor diferença - que se nunca tivesse existido não faria falta a nada, a ninguém, e nem a si mesmo, o que é pior. Sentir que a própria vida foi toda um desperdício de energia, foi à toa, sem propósito algum.
Percebi o quão superficiais são minhas relações. Como eu me envolvo pouco com tudo, com meus desejos, com meu prazer, com minha felicidade, e com as pessoas, quando se trata de experiências sexuais. Embora eu pareça fechada a quem não me conhece, quando eu conheço alguém de quem gosto eu normalmente me apaixono imediatamente, e me entrego a essa pessoa. Deixo meu coração disponível, todas as portas da minha vida abertas. Fazer isso é perigoso, envolve o risco de um tombo enorme, mas penso que se não for assim, pra que se relacionar com as pessoas? Se não for assim, melhor viver numa ilha deserta, sozinho durante a vida toda. Mas embora eu me entregue emocionalmente às pessoas com facilidade, quando se trata de relacionamentos que, ainda que por uma noite apenas, ainda que por um momento, envolvem contato sexual (e por sexual, me refiro a QUALQUER tipo de contato sexual - "ficar', por exemplo), eu sou toda só superfície. Eu posso até fazer de TUDO, poderia trepar ali no meio da pista de dança, liberar geral MESMO mas faria sem um pingo de paixão, sem um pingo de tesão, de envolvimento sincero.
A constatação disso me arrasou. Me desgostou perceber também como é assim para grande parte das pessoas. Nós cumprimos rituais de lazer. Apenas rituais - exteriores a nós mesmos e aos nossos desejos. Beber, ir pra uma boate, dançar, eventualmente beijar alguém, amigos, amigas (claro - além de freqüentarmos um grupo de amigos "liberais", também temos sempre a nosso favor o fato de estarmos na Savassi, num espaço onde somos pagantes e consumidores e onde, sob a névoa das modinhas moderninhas, tudo é liberado, desde que, é claro, não penetre a nossa pele e atinja de verdade nossos corações - desde que ninguém ultrapasse a linha dos prazeres plásticos permitidos aos fins de semana). Isso tudo me enfureceu, mas eu não sabia o que fazer.
A minha empolgação com algumas coisas e pessoas que conheci nesse carnaval se deve ao fato de ter percebido que existe gente que tenta reverter o quadro, "mudar a vida", citando Rimbaud. E, através do estudo dessas idéias, da vida dessas pessoas, das ações delas, eu espero me armar com ferramentas para mudar o meu cotidiano. Para que, ainda que eu tenha que me sujeitar a um trabalho nojento como a maioria das pessoas, ainda que eu também seja escrava do dinheiro, e ainda que eu não consiga fugir completamente do consumismo, que pelo menos eu seja de capaz de tornar válidos os momentos da minha vida que restarem."
domingo, janeiro 27, 2008
Não creio que tenha se passado tanto tempo assim. Alguns anos, muitos dias - já não sei mais. Não sei dizer também o que mudou. Mudou, mudaram? Eu mudei? Procuro o espelho, olho-me atentamente nos olhos. Mudei? Não sei, não sinto. Ainda sou eu, certo? Olho - reconheço-me tão pouco quanto antes, quanto sempre. O mesmo medo vil e inconsistente, o mesmo olhar pesado, os mesmos medos. Ainda sou eu.
Há quanto tempo troquei o dia pela noite e a noite pelo dia, não me lembro. Mas sei que agora é do silêncio que mais gosto. E é com leveza que consigo me mover bem. Na leveza da boa música, das tarde quentes de uma terça-feira qualquer. E tudo é suavidade, tudo é limpo e sincero. Não há mais pressa, o tempo não me persegue mais. Já não fujo dele, nem de mim, nem de ninguém. Às vezes o silêncio é amargo e duro, mas mesmo então ele é vivo, verdadeiro, eu o sinto. Sinto-o com toda sua força - intensamente destrutiva ou pacificadora. Sei que já faz tanto tempo...
No silêncio estou indo de encontro a mim mesma - sempre estive, na verdade, sempre estamos. Mas agora eu sei. Não tenho pressa, e já não dói tanto o profundo e eterno conhecer de mim mesma. Estou aprendendo aos poucos a me conhecer nos outros, nas coisas, nos bichos, nas estrelas, na terra molhada, nos muros cinzentos, na música, no ruído, na sujeira, nos sorrisos. Já não dói tanto assim me olhar no espelho e ver as cicatrizes de tantas lutas vãs contra o que sou. Mais uma vez, estou indo de encontro a mim mesma e aguardo, de armas na mão, o momento incerto de mais um confronto, do qual sairei, novamente, como quem sai de um ovo, como quem expande o corpo, como quem nasce.
"Quem quiser nascer tem que destruir um mundo." (Hermann Hesse)
quinta-feira, janeiro 24, 2008
"É melhor morrer de vodka do que de tédio"
digamos que, após a última bebedeira, eu tenha surtado. Mais uma vez. Já estou me acostumando com isso, na verdade, parece um ciclo: eu bebo demais, faço/falo besteira, passo mal (meu fígado tem se mostrado cada vez mais rebelde e intolerante com meus excessos), solto todos os meus demônios, e no dia seguinte, quando minha consciência desperta de seu coma induzido, e eu tenho todos esses demônios que eu havia libertado para recapturar e aprisionar nos abismos do meu peito, e tantos gritos proferidos para silenciar, e quando a minha severa auto-crítica volta a condenar meus atos, um por um, quando o efeito libertador do alcool se dissolve na poeira cinzenta do cotidiano, eu surto. Surto mesmo. Começo a achar tudo ruim, a pensar que está tudo errado. É mentira que eu tenha chegado a desgostar de beber, mas as censuras todas, todas elas com seus dedos malignos apontados para mim, me fazem crer que eu não deveria mais beber. Então eu corto relações com a vodka. Traço milhões de planos, e faço milhões de de promessas, e tomo decisões. De certa forma, culpar a bebida pelas coisas que eu deixo de fazer é uma forma de argumentar contra ela. No fim, é mais uma tentativa de manter em silêncio tudo que eu quero gritar. E depois de tudo, a monotonia e o sufoco de estar comigo mesma me levam, mais uma vez, a buscar na bebida a vida que eu me nego todos os dias. Não faz sentido, eu sei que não faz sentido.
Mas eu sei que, na verdade, o problema não é a bebida em si. É Thanatos, a pulsão de morte, que me empurra sempre para o abismo dos excessos. Afinal, não é verdade que "o todo se dignifica quando a vida é líquida"? Mas os excessos são traidores. Não te libertam, te aprisionam. Quando percebo, fico refém de um estado alterado de consciência - aí já não sou mais eu, mas todos os meus desejos contidos surgindo com força e falando através de mim. Eu sei que eles fazem parte de mim, mas liberta-los é diferente de se deixar dominar por eles, principalmente porque, quando isso acontece, eu costumo me esquecer mesmo de tudo que eu sou (ou penso que sou - quem sabe?), de tudo que amo, de tudo em que acredito, e até mesmo dos meus prórpios desejos. No fim da noite, eu sou toda um vulcão de frustrações, pronto para cuspir no mundo toda a amargura das próprias covardias. Sim, estou cansada. Meu corpo está cansado - essa estratégia juvenil de fuga está se voltando contra mim mesma, e o estado de liberdade que eu pensava alcançar não passa de uma grande mentira, rindo de mim. Eu, a tola, a covarde, sempre covarde - e a bebida já não me serve como escapatória, mas se torna meu carrasco, ao me empurrar cada vez mais para o confronto comigo mesma, com meus desejos vãos, com minha tristeza escondida, com meus assuntos não resolvidos, com tudo de podre e perdido que eu trago preso no peito.
É necessário, mais do que nunca, suprimir meu feroz superego, e deixar Eros surgir das profundezas profanas da minha (in)consciência sem a ajuda, traidora, da bebida. Fazer da lucidez um estado tão prazeroso quanto a embriaguez, e não somente um período triste do meu dia que eu entrego ao tédio e aos generais da moral e da ordem. Liberar de vez meus demônios, e lidar com eles, e ainda que eu possa sair ferida, estarei mais leve. É, eu acho que é isso.
Saudade besta de um tempo que já passou.
Mas eu ainda acredito nessas palavras, e desconfio de uma sabedoria infinita contida nas entrelinhas desse texto. Coisa de vida, mesmo. Aprender aquilo que a gente sempre soube, mas que a gente faz questão de esquecer, ou fingir que esqueceu - afinal, "viver é muito perigoso". É ou não é? Esquecemos, será que eu esqueci? Tanto riso, tanta coisa boa, tantas verdades, muitas verdades. O descontrole é mais sincero? Eu acho. Sempre acho. Claro, nem sempre é só prazer, nunca é mais sensato, e às vezes dói, dói, dói. Mas é sempre sempre sempre mais verdadeiro, mais vivo, mais sincero. E é bom que se saiba também que, no descontrole, você pode acabar soltando demônios que depois não vai mais saber calar. São riscos, grandes riscos. Mas sem eles, será que vale alguma coisa? Viver com verdade. Verdade, antes de tudo, nas coisas que eu deixo entrar em minha vida, e nas coisas que saem de mim. Verdade pra tocar outras pessoas, pra ser tocada por elas - verdade no entendimento de tudo, nos desejos, no sofrimento também.
Saudade de um tempo em que não era preciso pensar nessas coisas. A gente as vivia apenas, no calor da urgência de felicidade.
terça-feira, janeiro 22, 2008
Os livros, as promessas, as mudanças, que por tanto tempo esperaram uma resposta, continuam onde estavam. O sono me seduz com a possibilidade de você. Meu corpo me consome. Não como. Já não sinto vontade de beber, de fumar. Adoeço. Meu desejo é febril, tudo arde, tudo perece em meu desejo. Meu corpo me consome. Estou exausta e faminta.
O amor, em tempos de barbárie, é sempre um conforto, eu sei. O amor é chão, é a certeza do fim da longa viagem, o amor é a certeza do pouso, o consolo das asas cansadas. Duvida? Duvido.
Vacilo. A infâmia do desejo vão é a tortura do corpo. Injúria.
Você me consome.
"It takes strength to be gentle and kind"
I know it’s over
And it never really began
But in my heart it was so real
And you even spoke to me, and said :
“If you’re so funny
Then why are you on your own tonight?
And if you’re so clever
Then why are you on your own tonight?
If you’re so very entertaining
Then why are you on your own tonight?
If you’re so very good-looking
Why do you sleep alone tonight?
I know …
‘Cause tonight is just like any other night
That’s why you’re on your own tonight
With your triumphs and your charms
While they’re in each other’s arms…”
It’s so easy to laugh
It’s so easy to hate
It takes strength to be gentle and kind
Over, over, over, over
(...)
Para a menina minha neblina
Lembra daqueles dias cinzas de tanto tempo atrás? Não sei se você havia percebido, mas seus olhos continham toda a cor desse mundo. Você percebeu? Seu jeito criança era o dono da minha vida coração felicidade.
Lembra quando, juntas, nós realizamos um desejo antigo de brincadeira, e fizemos para um boneco um pára-quedas de sacola plástica de mercado? Lembra como ele flutuou por alguns segundos, sustentado no ar pelo ventilador ligado?
Menina... em me lembro. Você não sabe, mas eu me lembro tanto, sempre, do seu sorriso... Eu penso tanto em você... Ainda, sim. Mas já não sofro mais. Penso na beleza que você, sem notar, trouxe para a minha vida, e em tudo que penso que poderíamos ter sido, se não fosse meu coração covarde, se fosse o tempo certo, talvez... Pensar em você já não dói tanto quanto antes, a não ser, é claro, nas madrugadas tristes que às vezes passo comigo mesma - mas você sabe, querida, tanto quanto eu, que estas fraquezas românticas devem ser perdoadas.
Sinto sua falta, sinto falta de amar você, ainda que do nosso jeito tímido, clandestino até; sinto falta de dedicar meus dias a te esperar, e confesso que ainda procuro por seus olhos quando passo por algum lugar onde eu sei que você poderia estar... Você me deu alegria. Você me deu coragem. Você será sempre minha neblina...
Sim, sinto sua falta, e é triste te ver e não sentir mais meu coração querendo saltar pela boca, e não sentir medo, euforia e aquela angústia delicada e ansiosa que ardia em meu peito. Já não sinto mais, e isso é triste, sim. Mas você também sabe, minha pequena, que nós jogamos com nosso sentimento, e eu prefiro acreditar que não teria dado certo mesmo (acho que é um jeito de aceitar com mais leveza a nossa sorte). Não sei. Amar você foi provavelmente o que de mais intenso, desesperadamente intenso, dolorosamente intenso, já senti. Você me deu vida quando eu já não esperava mais nada.
A sombra do que sentimos será para sempre um abrigo dentro de mim, onde me refugio quando preciso de fé.
segunda-feira, janeiro 21, 2008
Não importa a habilidade do joalheiro - não é possível fazer diamantes de cristais vagabundos de beira de rio...
O relógio já deu suas voltas, pelas quais tanto esperei, e só serviu para que eu visse que sou mesmo quem sempre me disseram que eu era. Tantando não decepcionar os pretensos roteiristas da minha vida, eu acabei decepcionando a menina que jurou para si mesma jamais se tranformar no que sou agora: igual a todos os outros, vencida, rendida, prisioneira.
Onde estão as asas que eu pensava possuir? Como pode ser tão fácil desistir de si mesmo, de sonhos que me eram antes tão vitais?
O tempo continua arrastando o meu dia, e sei que escrevo para fugir do dedo severo que sinto apontado para mim, condenando a adulta que ainda não sou e devo ser, porque a vida passou e eu fiquei para trás...
Mais uma vez eu grito e ninguém responde. Eu os ouço, sei que estão aqui, mas meus gritos não são ouvidos por eles e aos poucos minha voz enfraquece e morre: eu também já não acredito em ninguém. Estamos mesmo todos sozinhos? Penso que cada um vê somente a si mesmo em tudo. Refletimos em tudo um pouco de nós mesmos, para que, mesmo em um mundo tão hostil e confuso como esse, sejamos capaz de reconhecer alguma coisa do que somos. Ou pensamos que somos. Acho que. Não sei bem.
A noite está mais fria e o céu está mais escuro. A minha melancolia se dissolve nas nuvens - por um instante eu não sei dizer se estou viva, mas então eu me lembro que também preciso pagar a passagem do ônibus. Conto as moedas. O dinheiro é suficiente?
Já não me lembro do que eu era antes. Não sei que força me atirou no abismo de tanta solidão e fraqueza. Fecho os olhos com força. Busco em minha memória alguma coisa que seja eu - em vão. Também estou sozinha. Também não sei quem sou e não sei o que procuro.
Ainda me pergunto até quando serei mais um fantasma vagando entre outros mortos. Sei que chegará o dia em que minhas pernas não mais suportarão o peso das minhas máscaras velhas e sujas, que já não enganam a ninguém além de mim mesma. Espero que este dia não demore a vir - estou cansada de me esconder. O que eu espero? Também não sei. Quantas noites eu ainda poderei dormir tranqüilamente até que o teto caia em minha cabeça?
Sei apenas que ainda estou imóvel, esperando aquela estrela cadente que só eu não vi.
sábado, janeiro 19, 2008
Apesar de todos os momentos de alegria e paixão, ela agora se sentia mais só do que nunca e desejava ardentemente as noites de desespero e a agonia da solidão desmascarada, pois nada podia ser pior que as correntes da própria covardia. Sabia, sim, ela sabia, que jamais sairia dali com suas pernas - não suportaria vê-lo sofrer e conhecia-o bem demais àquela altura para prever sua reação. Não conseguia se imaginar dizendo as palavras que colocariam fim à sua amargura, embora quisesse, mais que tudo naqueles dias, ouvi-las da boca dele. Não podia falar de seus sentimentos, pois o respeito pelo companheiro a impediam de falar com outra pessoa. Desejava outro, desejava muitos, desejava a cama vazia e apenas o próprio corpo, que havia entregado a ele cega de amor. E principalmente desejava o fim de tudo, e tão grande era sua tristeza que desejava que o fim viesse por qualquer meio que fosse. Um abismo profundo a engolia por dentro quando via nos atos dele tudo que mas detestava nos homens. Percebia-se prisioneira e já não tinha mais de onde tirar forças para ir embora, refugiando-se em seus pensamentos e perdendo-se em meio à aflição de sua cruel sentença de infelicidade.
Por que sou assim?, pensou, antes de adormecer para evitar que sua lágrimas a sufocassem.