terça-feira, outubro 25, 2005

A morte
chegando aos poucos pela vida-não
pelo prazer doentio do ciúme
e pelos sentidos inertes da solidão.

sábado, julho 09, 2005

Como se não soubesse
surpreendeu-o o espectro repentino daquele passado
e as velhas grades de proteção tombaram
vencidas pelo tempo e pela resignação.

A casa antiga guardava a sobriedade do abandono
e encerrava atrás de seus portões um prisioneiro imortal
mas escondia em seu coração um tesouro eterno,
e mil brinquedos de crianças esquecidas.
E os lúcidos fantasmas que a protegiam
não eram mais que brancos lençóis
e fabulosas histórias perdidas através de séculos.

O pó, as janelas quebradas, a lúgubre secura das rosas
não eram senão apenas uma fantasia
mas o solene luto pelo deus morto nas montanhas
sobrevivia sempre aos meses do frio.

E porque frias eram as mãos do homem
e porque duros eram seus olhos de muitos anos
(tal como a rocha que peita o oceano e a maré)
o homem então revestiu-se de febril coragem
e guiado pela incorrupta certeza da fé
invadiu a casa e derrubou suas paredes
como quem destrói muralhas de um império inimigo
e tomou sua fortuna infinita e libertou seu cativo
como quem cumpre seu único e exato destino
por tanto tempo aguardado
e para o qual se preparou em vida sem saber.

Assim
se fez homem.
E por fim pôde caminhar serenamente
por entre as ruínas de um longo pesadelo.
Sentiu que pisava enfim
os cacos de remotos e cruéis espelhos íntimos
e as velhas páginas,
corroídas como seu espírito cansado,
arrancadas para sempre do livro dos seus dias.
"Hoje sei muito bem que nada na vida repugna tanto ao homem do que seguir pelo caminho que o conduz a si mesmo."
Hermann Hesse

quarta-feira, julho 06, 2005

Aquele homem já não era o mesmo.
De repente
pareceu outro.
Assim, outro,
como se já não fosse
como se não tivesse sido jamais.

Mas era, e isto era sabido.
Porém os olhos podiam fechar-se novamente
porque não mais importava a abertura das portas
não mais importavam as rachaduras no espelho
e nem a sombra dos passos da bailarina.
Bastavam as madrugadas juntos
o café na cozinha, o silêncio, a solidão cúmplice.
Bastavam para sempre as lembranças
e a certeza cega do futuro.
Bastava o sentimento
e todas as horas do dia.

Porque o mundo era isto, e só.
E era perfeito
assim.

Sobre o Amor

"(...)
Mas se, receosos, procurardes só a paz do amor e o prazer do amor,

Então é melhor que oculteis a vossa nudez e saiais do amor,

Para o mundo sem sentido onde rireis, mas não com todo o vosso riso, e chorareis mas não com todas as vossas lágrimas.

O amor só se dá a si e não tira nada senão de si.

O amor não possui nem é possuído;

Pois o amor basta-se a si próprio.

(...)

E não penseis que podeis alterar o rumo do amor, pois o amor, se vos achar dignos, dirigirá o seu curso.

O amor não tem outro desejo que o de se preencher a si próprio.
(...)"


Gibran Khalil Gibran
Estou tentando parir
um poema
Esta preso na minha garganta
Em meus olhos
Em meus dedos
esses dedos pequenos e delicados
que carregam poderosas garras no espírito
assim como eu.
Eu carrego um poema nas minhas entranhas
Um poema indeciso
grande ou pequeno
simples.
Um poema que não sabe dizer palavra
que não conversa em outras línguas.
Um poema silencioso
que seu instalou em meu peito
que luta para sair:
pressiona minhas costelas
arrebenta meus pulmões
e grita
e chora
e dói.
Trabalho de parto sem anestesia:
eu sem inspiração.
Um poema que não quer nascer.


E ele fica aqui, seguro,
impassível,
esperando apenas a coragem do silêncio,
o último raio de sol,
a primeira escuridão.
"A derrota me satisfaz porque ocorreu, porque está inumeravelmente unida a todos os fatos que são, que foram, que serão, porque censurar ou deplorar um único fato real é blasfemar contra o universo."

Jorge Luis Borges

quarta-feira, junho 29, 2005

Corre.
Corre contra o tempo.
Corre
contra vento.
Morre.
Morre pra saber a vida.
Descoberta do segredo original
saber-se vivo
morto.

A dor primeira
e a escuridão última.
O entendimento lúcido da razão essencial:
a certeza exata do passado
a dúvida rasgada do futuro
o presente a eternidade.
O nada.
O por quê das coisas todas.

A vida imóvel e repetida
na voz flutuante de um contador
e tudo lá.
Tudo sempre lá.
Tudo fica em seu lugar
quando não há mais o que fazer.

Mas ele sabe
O coração tinha seus motivos.

Passou assim
uma busca incessante pelo perder.

Evitar de ser si.
Evitar de ser só.

A Máquina do Mundo

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade:

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.


Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, junho 16, 2005

Os sonhos continuavam
indefinidamente.
E a loucura já guardava meu sono.

Eu não sabia que os sonhos
não eram os mesmos
e não eram os meus.
Mas por que então eu insistia em querer
em querer o toque luxurioso
daquele que se revelava?

Já não podia pensar
e não saberia dizer se os meus olhos
buscavam o descanso
ou um olhar outro que não existiu.

O medo então era manso
e o corpo esgotado não encontrava forças
para erguer suas máscaras.
Eu só queria esconder
não sentir e quem sabe
esquecer o que seria
se pudesse ser.

Mas não poderia e eu entendo
entendo por mim e entendo
porque no fundo eu sempre soube
eu sempre sei o final dessas histórias.
E eu nunca acreditei no poder do desejo
porque o desejo
esse desejo sempre infantil de amor e de corpo
tem sido diversas vezes vão.

E assim
além dos muros e dos corredores
onde busco incansavelmente a minha própria covardia
eu vejo o mesmo velho rio de águas geladas
e o mesmo fogo inútil que se apaga aos poucos.
Sempre aos poucos.

Confissão

esperando pela morte
como um gato
que vai pular
na cama

sinto muita pena de
minha mulher

ela vai ver este
corpo
rijo e
branco

vai sacudi-lo e
talvez
sacudi-lo de novo:

“Henry!”

e Henry não vai
responder.

não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.

no entanto,
eu quero que ela
saibaque dormir
todas essas noites
a seu lado

e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas

e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora
ser ditas:
eu te amo.


Charles Bukowski
Essas mãos brancas e frias
por que tremem?
E onde meus olhos encontram
céu azul e flores
as catacumbas seculares
continuam ali.
A pele seca e o sono
e o coração descompassado
mas afinal o que dizem as letras
e os homens?

Ainda a distância, a ausência
ainda a dúvida e o não-entender
mas o seu corpo que chama
e os livros, ah, os livros
e eu aqui, sem saber.
Meu pensamento fica fugitivo
e procura a todo instante ilusão
abrigo nos seus olhos
mas seus olhos permanecem seus
e há uma voz que se cala repetidas vezes.

O chão frio, as paredes brancas...
e escadas que sobem-descem ao desconhecido
Minhas idéias confusas
com seu sorriso constantemente em mim
Tento inutilmente evocar as doces madrugadas
mas suas mãos fortes saltam no escuro
e me prendem nas terríveis fantasias
essas terríveis fantasias que me consolam.

O tempo que passa e não passa
as horas se arrastam
mas quando percebo já é o momento de ir.
Meus pés cansados desistem de correr
e talvez eu ainda desista de esperar.

Talvez eu ainda desista de esperar

Tortura

Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida verdade, o Sentimento!
-- E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!...

Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
-- E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento...

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!


Florbela Espanca

quarta-feira, junho 15, 2005

Se eu dissesse que és meu único par no mundo
Acreditarias em minha palavra?
E se eu arrancasse então toda a poesia do meu peito
e dedicasse a ti
Acreditarias em minha palavra?
E de que me importa que não acredites
De que me importa que minhas palavras
Não alcancem teus pensamentos?
Se só o que quero é a alegria de dize-las
É a euforia de abrir os portões do peito e gritar
Gritar a liberdade de mim mesma
Gritar a liberdade do mundo
Não penses que espero as tuas palavras
Não creias que desejo respostas
Não as quero - não preciso.
Não preciso de doçuras no ouvido
E de que me vale o mel dos teus lábios se não irei beija-los
Quero antes o mel nos meus lábios
Quero antes os meus sonhos na madrugada
E a certeza das portas abertas
Ou fechadas.

Uma didática da invenção

Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:

A) Que o esplendor da manhã não se abre com faca;

B) O modo como as violetas se preparam para morrer;

C) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos;

D) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação;

E) Que um rio que flui entre dois jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre dois lagartos;

F) Como pegar na voz de um peixe;

G) Qual o lado da noite que umedece primeiro;
Etc.
Etc.
Etc.
Desaprender oito horas por dia ensina os princípios.


Manoel de Barros

terça-feira, junho 14, 2005

Em que curva da vida eu deixei as minhas asas?
Eu sei que deveria estar voando agora
Mas a tarde está tão quente
e o brilho intenso do sol me faz apertar os olhos.

Hoje eu não quero voar
Quero caminhar lentamente por essas ruas serenas
Quero olhar para o céu com os pés no chão
E me apaixonar pelas flores que encontrar no caminho

Hoje eu quero ouvir o canto das cigarras
Quero entender o trabalho duro das formigas
Hoje eu quero a firmeza da terra
a solidez das pedras
o coração dos bichos
pés e mãos – e as arvores seculares

Hoje eu quero a floresta úmida
e os casebres escondidos dentro dela
onde moram não bruxas – não
mas o índio e o seringueiro
e o macaco e a arara de penas vermelhas
Hoje eu não quero o guerreiro e a virgem
mas o pai e a mãe e o filho.

Hoje eu não quero as magias do pajé
não quero santos nem magos
e nem os espíritos da natureza.
Hoje eu quero as borboletas no lugar das fadas
Quero o pássaro o lagarto o peixe
a grama molhada e o rio de águas escuras.

Hoje eu quero apenas a beleza que os olhos podem ver
quero os sons e os cheiros do mundo.
Hoje eu não quero voar.
Hoje eu quero viver
e ser
e só.
"[...]
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvidas que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isso é talvez ridiculo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Como o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é flores e as árvores
E os montes e o sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as arvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez para eu o ver,
Sol e lua e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes e luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais seu eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda hora."


[ALBERTO CAEIRO - Fernando Pessoa]

sábado, junho 11, 2005

Posso escrever os versos mais tristes esta noite

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros, ao longe”.

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu a quis, e às vezes ela também me quis...

Em noites como esta eu a tive entre os meus braços.
A beijei tantas vezes debaixo o céu infinito.

Ela me quis, às vezes eu também a queria.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

Que importa que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
Minha alma não se contenta com tê-la perdido.

Como para aproximá-la meu olhar a procura.
Meu coração a procura, e ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquear as mesmas árvores.
Nós, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a quero, é verdade, mas quanto a quis.
Minha voz procurava o vento para tocar o seu ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.

Já não a quero, é verdade, mas talvez a quero.
É tão curto o amor, e é tão longe o esquecimento.

Porque em noites como esta eu a tive entre os meus braços,
minha alma não se contenta com tê-la perdido.

Ainda que esta seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.


Pablo Neruda

(Porque eu jamais vou me esquecer daquela madrugada e desse poema)

quarta-feira, junho 08, 2005

Sinto que alguma coisa se calou dentro mim. Alguma coisa se acabou nesse mundo muito antes de começar. Em algum lugar do universo uma estrela morreu e o último suspiro daquela fada vai ecoar eternamente na minha memória.
A certeza da porta fechada dói mais do que eu pensava. Agora eu sei.
O céu de repente ficou tão escuro... será a chuva ou os meus olhos? Faz frio em meu quarto, e o meu corpo, tão pesado, não voa com o vento.
Os anos passam devastando sonhos e aniquilando as sempre vãs esperanças. Mas eu preciso acordar de manhã. Eu sei que o mundo não perdoa as aflições dos pequenos.
As borboletas do meu estômago morreram todas, envenenadas.
Mas meu coração destroçado repousa em paz, silencioso dentro do peito.


Texto velho, de um momento no qual todas as portas pareciam definitivamente fechadas
(...)
Voltar para casa é sempre demorado, lento e triste como as segundas-feiras; voltar para casa, quando se vive sozinho e o pó deita teias de aranha no canto dos quartos, é o que se pode chamar de uma vilania contra si mesmo. Mas para onde não voltar?
(...)

Wilson Bueno

Para onde não voltar?
É uma boa pergunta...

terça-feira, junho 07, 2005

O pior é saber que eu ainda vou escrever sobre ela. Porque ela não é só a sua bailarina, ela é antes a bailarina que eu não sou, é a mulher que eu queria ser. Porque tudo nela é belo e expressivo, porque seu corpo tem a poesia e a intensidade implícita da música, porque ela tem enormes olhos verdes de criança assustada e o sorriso mais bonito que eu já vi. Porque ela é linda e é uma pessoa linda, e seu espírito tem a alegria de um pardal e a tristeza de uma rosa dentro de uma redoma de cristal. E como se não bastassem todos esses motivos, porque ela é a luz dos seus sorrisos, e é ela que você vê rodopiando nas madrugadas insones... Por tudo isto, e por tantas outras razões enterradas em meu peito, eu ainda hei de escrever os versos mais lindos para ela. Versos que você escreveria e que eu queria que você escrevesse para mim.
Eu sei, eu sei...

Bailarina

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina

não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé

não conhece nem mi nem fá
mas inclina o corpo para cá e para lá

não conhece nem lá nem sí
mas fecha os olhos e sorri

roda, roda, roda com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.

põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.

esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina

mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.


(Cecília Meireles)

domingo, junho 05, 2005

O que vais fazer
agora que as violetas na sua janela
morreram
e as flores do teu precioso jardim
murcharam todas?
Uma a uma
debochando da tua dedicação
abandonaram-te
e tudo que tens agora
e o desgosto do cuidado vão
e um jardim de cadáveres e sombras
dentro da tua casa.
E agora
será com estas flores secas
que ir’as enfeitar a fronte de tua esposa?
Se quisesses
Poderias enterrar tuas amantes mortas
E quem sabe assim conhecerias
os encantos alem dos portões
e poderias entender o vôo das libélulas
e a umidade do vento
Mas como preferes a segurança das raízes
podes concertar estas cercas
e plantar as sórdidas sementes que restaram
E então ver’as nascer mais uma vez
quem sabe os mesmos jacintos
as mesmas tulipas
e jasmins
com as quais poderás ornamentar teu sepulcro
e coroar os velhos fantasmas inventados por ti
Podes faze-lo
mas já sabes que não são eternas
as flores de plástico
e que somente a terá se lembrar’a de ti
quando o poema que escreveste para as estrelas
se transformar em silencio
e o teu Éden que construíste com teu sangue
se transformar em pó.


(o teclado esta com problemas nos acentos.)
(o poema nao esta terminado.)
(paciencia.)

sábado, junho 04, 2005

Sonetos que não são

Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha

Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha.)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.


Hilda Hilst

terça-feira, maio 31, 2005

E a vida sempre nos surpreende, tentando tragicamente dar um sentido menos egoísta às nossas dúvidas existenciais. Como é que isso acontece? Um dia simplesmente acaba tudo. É estranho como certas coisas absolutamente distantes de nós acabam ressuscitando perguntas tão antigas e tão esquecidas...

Eu me pergunto repetidas vezes: então crescer é isto? É viver de feriado em feriado, apagando sonhos e fugindo covardemente das possibilidades, guiados pela estúpida convicção de estar fazendo a coisa certa... O que é certo, então? É fazer o que se quer, amar desesperadamente e ilimitadamente como se tem vontade, é sonhar como uma criança e perseguir todas as borboletas que cruzarem seu caminho? Ou será que é certo ocupar todo seu tempo construindo uma segurança material, que não é senão ilusória, porque não pode existir segurança material entre seres mortais... E de repente a frágil linha da vida se rompe em suas mãos, e você percebe que se ali fosse você, mergulhado eternamente em águas profundas, você, que deixaria tanto, tudo que construiu com tanto sacrifício, não levaria nada, porque nunca teve tempo para lembrar que as coisas que nós podemos levar daqui não são fabricadas no suor do trabalho, mas no calor das paixões irresponsáveis e das loucuras infantis...

Se eu morresse hoje, morreria feliz?
A única coisa que faz sentido em minha vida agora são as pessoas que eu amo.

Sou apenas eu que penso assim, ou todos concordam que a vida é pouca e que pecado é passar o inverno esperando o verão, o dia esperando a noite, a vida esperando a morte, enquanto todas as belezas do mundo explodem do lado de fora da janela do seu escritório? Acho que inventaram a vida eterna para que as pessoas não se importassem em doar suas vidas para a produção de mais e mais e mais riqueza e poder (para outros), esquecendo de tudo que é importante e verdadeiramente significativo para elas... Vida eterna... eu não quero se não puder levar comigo flores, passarinhos, mariposas, luas e estrelas, se não puder levar comigo o cheiro do meu amor na minha cama e o seu coração, que é o único par do meu coração em tudo nessa vida, o suspiro das minhas crianças dormindo, a alegria das pessoas que eu amo tanto, o abraço de reencontro dos meus amigos, o gosto da parmegiana da minha infância e da pizza de atum que só meu pai sabe fazer, as lágrimas minhas e de minha mãe nos filmes de chorar e a confiança que temos uma na outra, a cumplicidade que sempre existiu entre eu e minhas irmãs na hora que "o bicho pega", o medo de filme de terror, os gatinhos de rua que nós trazemos para casa escondido, o meu cachorro homossexual, as aventuras pelas ruas da cidade e os piqueniques na garagem, as madrugadas em claro, as cicatrizes no joelho, o amor, o amor, o amor...

Como é triste não ter tempo para a vida!

E então, como fazer? Como virar a seta do tempo e ficar criança para sempre? Qual é o caminho certo? É se conformar e esquecer? Será que tem mesmo jeito de esquecer essa fome louca de vida que pulsa dentro do peito da gente? Se alguém souber como esquecer, por favor, não me ensine nunca. Porque até a dor de cair de pára-quedas na vida real de vez em quando é mais suportável do que a ausência absoluta de si mesmo durante toda a eternidade.

Eu não sei, mas algo acabou de mudar.

Plágio de mim mesma - tirado do Leite no Pratinho.

segunda-feira, maio 30, 2005

"Os mundos uivam o próprio canto fúnebre.
e nós somos macacos de um Deus frio".

Karl Marx
O conto de fadas sempre acaba?
A vida real é o que sobra sempre?
Alguém me explica de que vale tudo isto?

O feriado passou e todo o mundo que eu havia deixado para trás despencou mais uma vez em minha cabeça. Não está na hora de se tornar adulta? Estudar, namorar, trabalhar, como as pessoas sérias. Eu já quis tanto tudo isto, eu pedi tanto por isto... Aonde eu deixei minha vontade de crescer? Eu quis tanto crescer, e parecia estar sempre tão longe... mas eu cresci, afinal. E agora, como é regra nos corações desajustados, me pergunto desesperada se não estaria tudo indo embora rápido demais, e busco incessantemente um sentido para a vida real, algo que justifique tantos sacrifícios, tanta tristeza... Eu pensei que conseguiria permanecer imune ao mundo, mas eu também sou covarde, e eu também vou deixar minha vida cair no mesmo vazio a que se entregam todas as pessoas, e do qual já estive tão perto outras vezes...
Músicas tristes embalam minha melancolia e mais uma vez sinto o meu peito ficar apertado e quase explodir... eu achava que nunca me sentiria assim novamente...

quarta-feira, maio 25, 2005

"(...)
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
(...)"

Fernando Pessoa